⚠️ FILÍPICAS: DIÁRIO DAS LUTAS DE CLASSES ANO 3, Nº 2 - FORTALEZA EM CENA - PARTE 1: O ESPETÁCULO DA INCLUSÃO E A ENCENAÇÃO DE DEMOCRACIA

 Não me convidaram

Pra esta festa pobre

Que os homens armaram

Pra me convencer

A pagar sem ver

Toda essa droga

Que já vem malhada

Antes de eu nascer

(Cazuza – Brasil)


 

Uma promessa muito antiga

Na última terça-feira (07/04) a Câmara Municipal de Fortaleza aprovou o projeto de lei proposto pela Prefeitura que instituiu o feriado municipal para o aniversário de Fortaleza, em 13 de abril deste ano, (hoje!).  Entretanto, ao anunciar seu planejamento para as comemorações do aniversário da Cidade ocorridos neste último final de semana, a gestão municipal trouxe uma mensagem que vai além do próprio marketing político.

Como assim?

Ora, ao repetir para as comemorações do feriado municipal a mesma estratégia adotada durante as comemorações do Réveillon e do Carnaval –a de descentralizar as comemorações espalhando palcos pelas Regionais – a PMF passa uma mensagem que não se restringe apenas à um ajuste de logística.

Fortaleza é uma metrópole que, historicamente, sempre concentrou grande parte do seu equipamento social longe das periferias, em especial, os equipamentos de arte e cultura (museus, bibliotecas, teatros, anfiteatros, etc.). O fato de que a política de festas e comemorações se dá agora de forma descentralizada procura afirmar muito mais do que uma mera organização logística. Ela é em si mesma quase um manifesto político de que a PMF estaria democratizando o acesso da população à arte e cultura.

Essa política seria uma forma de afirmar que Fortaleza havia finalmente encontrado o caminho para a democracia?

Como veremos a seguir, essa afirmação não é declarada apenas pelo poder Executivo municipal, mas constitui em todo o discurso do bloco político que hoje capitaneia a política local, seja a nível municipal seja a nível estadual.

 

A concepção de gestão política do lulo-petismo cearense

 


“Porque pelo fruto se conhece a árvore."

Lembra dessa máxima do evangelho?

Mostrando que a sabedoria não consiste apenas em falar através de conceitos e categorias, o evangelista aqui nos traz uma lição exemplar sobre a relação entre o discurso e a práxis política. Quer dizer, em política, ainda que as ações não coincidam diretamente com as intenções declaradas, a forma como as palavras são ditas podem expressar, ainda que involuntariamente, uma dada estratégia política.

Esta lição, por exemplo, foi trazida de forma exemplar pelos parlamentares petistas na Assembleia Legislativa nesta última quarta-feira (08/04) durante a sessão solene realizada vinte e quatro horas após a aprovação do feriado na Câmara. 

Ali os parlamentares do lulo-petismo, ainda que fizessem declarações diferentes tendo em vista objetivos diferentes, expressar a visão do lulo-petismo para a administração das instituições da república.

 Segundo o deputado Guilherme Sampaio (PT), por exemplo, ao longo dos seus trezentos anos, cidade de Fortaleza “evoluiu” e hoje ocupa o posto de maior economia do Nordeste e o de destino turístico mais procurado da região. Essa evolução, segundo este, é fruto da luta de um “povo trabalhador, resiliente e que, em muitos momentos, expressou sua rebeldia política”. Uma compreensão mais ou menos análoga também pode ser conferida no discurso do deputado Missias Dias (PT) que, ao exaltar Fortaleza, afirma que esta é “Uma cidade que cresceu e se desenvolveu. Uma cidade que hoje é referência para muitos brasileiros”, disse.

 O que essas declarações nos trazem? São apenas afirmações elogiosas movidas pelo desejo de registrar a presença desses deputados durante a sessão solene?

 Não leitor, leitora, essas afirmações apontam para a estratégia de gestão adotada pelo grupo político hegemônico à frente da gestão de nossa capital e do estado. Essa concepção de gestão tem como horizonte estratégico o desenvolvimento gradual a partir do chamado “pacto social”. Esta perspectiva está no DNA do lulo-petismo desde 2003.

 A visão do grupo político politicamente dominante é a de que – desde que bem administrada – tanto a cidade, quanto o estado, e o País, estariam no caminho do “desenvolvimento!” Essa compreensão tem como pressuposto a afirmação de que a estrutura do Estado de Direito no Brasil já seria suficiente para resolver os problemas da população, desde que esta tivesse o respaldo de bons administradores.

 Vemos, portanto, que a ideia de que Fortaleza e o estado do Ceará seriam exemplos de uma gestão democrática está presente no logos das correntes políticas dominantes na medida em que, segundo estes, a estrutura política e jurídica onde a democracia estaria ancorada já está consolidada. Por este motivo, os problemas políticos se resumiriam à capacidade gestionária dos grupos políticos à frente das instituições, ou seja, segundo o setor que não so é a fração hegemônica não so da política local, como da própria esquerda a nível nacional, o debate político teria sido deslocado do âmbito programático, para o âmbito moral.

A função das comemorações de 13 de abril é, portanto, clara, seria o de celebrar o encontro entre a estrutura e a gestão democrática da cidade.

 Mas eles estariam mesmo certos?

 

CONTINUA

O TEXTO CONCLUI NA POSTAGEM DESTA QUARTA-FEIRA (15/04)


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