⚠️ FILÍPICAS: DIÁRIO DAS LUTAS DE CLASSES ANO 2, Nº5 - UMA CONHECIDA NADA FAMILIAR

 


Conhecidos estranhos

2026 já está nas ruas, mas este texto que é meio crônica, meio artigo de opinião, começa trazendo ainda as lições vindas de 2025. Uma lição interessante é a reflexão sobre como as festas de transição de um ano para o outro são as situações mais evidentes de como nossa vida privada é diretamente formatada pelas relações sociais. Você já percebeu? Ainda que estas relações apareçam dentro do microcosmos de nossa teia de relacionamentos familiares, além de nossa rede de amigos e conhecidos.

Veja-se o meu caso. Por maior que seja minha casmurrice, estas comemorações trouxeram-me como exigência – no sentido de não comprometer a nossa rede de afetos pessoais que envolvem parentes e amigos – acertar as contas com a vida social e restabelecer os meus  vínculos diretos com a sociedade civil.

Esta exigência social envolveu viagens frequentes a polos comerciais voltados para a periferia, tais como o Centro da cidade. É preciso confessar: há anos eu não ia ao Centro. E já que estou confessional, por que não dizer tudo? Eu simplesmente não reconheço mais o bairro e as ruas onde tantas vezes andei durante a minha adolescência e juventude. Lojas e prédios antigos haviam sido destruídos para dar lugar a novos espaços e novas construções. Os pontos de referência haviam mudado e eu simplesmente não conseguia me orientar com a mesma familiaridade de antes, e, quando julgava estar indo onde queria ir, descobri que tinha tomado a direção errada.

Depois de pedir ajuda algumas vezes, parecia finalmente estar na direção certa quando, eis que uma estranha que havia cruzado comigo se vira para mim e começa a conversar no meio da rua, de tal forma que parecia me conhecia durante toda sua vida. No entanto, eu não fazia ideia de quem fosse. Que era uma pessoa que tinha sido do meu convívio e que estava familiarizada com pessoas da minha família e do meu círculo de amigos, logo se via pela forma como falava a meu respeito e das informações que dava sobre si mesma, o lugar onde morava e onde tinha estudado.

Não obstante, por mais que me esforçasse, o rosto parecia para mim, o de uma completa desconhecida, como se, por algum motivo, houvesse sido apagado da minha memória. Ao chegar para casa, não deixei de concluir que a impressão causada por aquela mulher, não era diferente do que Fortaleza passara a significar para mim, especialmente nos últimos dez anos: o de uma figura conhecida, mas que havia deixado de ser familiar.

Todavia, se o rosto de minha estranha conhecida não me parecia familiar, outra visão que percebi aparecer repetidas vezes na paisagem desta cidade me fez ainda aumentar o meu sentimento de estranheza.

Qual seria?

Bem...

A contradições e fenômenos que transformaram a paisagem da “Cidade do Sol”

Talvez um dos traços que mais cause estranheza para quem vive em Fortaleza há mais de duas décadas, seja a presença significativa de pessoas em situação de rua na cidade. Sejamos francos, Fortaleza nunca foi uma cidade muito acolhedora às pessoas em condições de fragilidade socioeconômica, no entanto, o fenômeno de pessoas em situação de rua era, até cerca de trinta anos atrás, algo que estava diretamente relacionado ao ciclo das secas e a migração das populações sertanejas para a capital cearense.

Mesmo assim, a presença de pessoas sem teto estava restrita à alguns espaços dentro da cidade. A Prefeitura sempre teve o “cuidado” – sendo aqui bem irônico! – de invisibilizar essas pessoas contendo-as e isolando-as em espaços determinados. Contudo, a visão dessas pessoas não só se intensifica, transbordando os lugares onde tradicionalmente estas costumam ser acomodadas, para emergirem de todos os lados da cidade, tornando-se em um aspecto permanente e não mais sazonal.

A visão de alguém ou mesmo de uma família inteira, sentada em um colchão velho à margem de uma grande avenida, tornou-se elemento constitutivo de nossa paisagem urbana. Mas será que estou enganado e essa seria visão apenas uma mera impressão subjetiva?

Vejamos aqui alguns números para ver se essa compreensão é objetiva ou apenas a visão de um homem impressionável.

Desigualdade Socioeconômica e Pobreza

De acordo com o Censo Municipal da População em Situação de Rua de Fortaleza a população nessa condição passou de 1.718 pessoas em 2014 para 2.653 em 2021, um aumento de cerca de 54,4% em sete anos. Segundo dados do Cadastro Único para Programas Sociais (abrangendo famílias/indivíduos inscritos em Fortaleza em março de 2025) foram registradas 10.071 pessoas em situação de rua na cidade, sendo a maioria composta de homens (8.574) predominantemente negros ou pardos (8.213), vivendo com uma renda per capita de até R$ 109 por mês, adquirida principalmente através de subempregos (reciclagem, flanelinha, pequenos fretes e mendicância).

Embora as estatísticas apontem para uma maioria fortemente masculina nestas populações, a partir de 2020, observou-se um aumento de mulheres com crianças ocupando praças, como a do Ferreira e a Gentil Porto. O IBGE indica que Fortaleza tem um dos maiores adensamentos excessivos em domicílios de baixa renda, o que empurra os membros excedentes para a rua.

O contingente aumenta em uma escala que ultrapassa o crescimento demográfico da cidade e indica maior precarização social e econômica em décadas. Diferentemente do que se podia observar nessas populações há cerca de trinta ou quarenta anos atrás, a maioria das pessoas em situação de rua em Fortaleza é natural da própria capital ou da Região Metropolitana. O fluxo migratório do interior para a capital continua, mas o fenômeno atual é majoritariamente de "expulsão doméstica" (perda de moradia na própria cidade).

Mas o que teria causado este crescimento absurdo da miséria e da falta de moradia em Fortaleza?

A pergunta pode parecer óbvia em si mesma, mas o problema dessa questão começa com como o próprio problema é colocado...

Como assim?

Intencionalidades e Questões

Em política, as palavras, os conceitos ou mesmo a própria forma como se colocam os problemas sociais, estão relacionados à algum tipo de interesse. Bem... e essa palavrinha: interesse? É uma palavra que vem sempre associada à política e há boas razões para isso, mas, em minha humilde opinião, essa associação é feita de uma forma um tanto quanto equivocada.

Por quê?

Porque quando dissemos em “interesse” em política, geralmente estamos nos referindo ao interesse individual de político A, B ou C. Na verdade há também interesses coletivos, ou seja, interesses ligados à grupos de indivíduos, ou mesmo interesses coletivos maiores. Essa ordem de interesses direta ou indiretamente estão relacionados às formas escolhidas para resolver nossos problemas coletivos?

De que forma?

Tomemos como exemplo a questão da mobilidade urbana. Ninguém nega que, mesmo com o crescimento absurdo do consumo de automotivo, a população de Fortaleza – sobretudo as pessoas que moram nas periferias da cidade – possui uma enorme dependência do sistema de transporte coletivo. Assim, a necessidade da criação de uma rede de transporte coletivo é sim um problema do interesse de todos, no entanto, a quem interessa que a concessão municipal do transporte coletivo seja realizada por empresas privadas, associadas ao Sindiônibus? Existem outras formas de resolver esse mesmo problema, mas a quem interessa que ele seja resolvido desta forma? Está me entendendo?

Mas você me pergunta, como se chegou à conclusão de que uma empresa (assim como todas) cuja lógica é sempre voltada para produzir com baixo investimento (quer dizer, com poucos ônibus, trabalhadores mal remunerados e equipamento sempre deficitário) e um alto valor de troca (leia-se, aumentos abusivos nos preços das passagens, chantagear a prefeitura a arcar com o custo de possíveis novos aumentos, ou não pagar aos trabalhadores rodoviários o seu devido reajuste salarial) era o melhor para resolver essa questão?

A questão é a de, mesmo quando o problema atinge a todos, na sociedade burguesa, ao se propor as saídas, determinados grupos de pessoas se favorecem em detrimento de outros. Mas como esse mecanismo funciona? Bem, sejamos sinceros, você acha que, quando alguém quer tirar proveito de outra pessoa, este sai por aí dizendo: “estou me aproveitando de você?” Evidente que não. Quando grandes empresas querem se beneficiar politicamente é natural que elas apresentem o seu interesse não como algo exclusivo, mas como algo que beneficiará a todos igualmente. Essa manipulação aparece inicialmente na forma como nos apresentam esses problemas, isto é, na maneira como tomamos conhecimento dele.

Quando falamos sobre o problema das pessoas em situação de rua, por exemplo, é muito comum que essa questão seja sempre apresentada como um problema isolado. Essa é uma forma muito frequente de se manipular a discussão política: isolando os problemas entre si ou mesmo do corpo social ao qual este se relaciona.

Esta perspectiva também aparece quando observamos a forma como são apresentadas determinados bairros ou comunidades da cidade, que nos aparecem como se estivessem isolados de todo o conjunto de nossa metrópole. Por isso, quando dizemos que bairro X é perigoso ou que o outro bairro Y é um lugar onde não existe nem mesmo água encanada, tendemos a ignorar o fato de que esses locais estão internamente conectados com o conjunto da nossa urbs, mesmo aos chamados bairros “nobres”. Afinal, no contexto da exploração do trabalho, se uns ganham e outros perdem, aqueles que ganham, só ganham obtendo exatamente aquilo que outros perderam. Se é que me entende!

Bem... você me pergunta, mas onde eu quero chegar com isso?

No reconhecimento de que o problema das pessoas em situação de vulnerabilidade em Fortaleza não surgiu do nada. Ele envolve uma teia de outros problemas e uma nova dinâmica que passou a existir em nossa cidade, especialmente após a pandemia.

                    Mas, por que entender como esses problemas estão relacionados? Qual o sentido prático de entendermos sobre essas questões?

Simples, porque quando nos depararmos com o cenário eleitoral com o qual temos pela frente este ano, os candidatos que disputarão nossos votos nos confrontarão com possíveis soluções para este problema e outros. A melhor forma de entendermos a quais interesses essas saídas propostas por eles realmente atendem – se das populações atingidas, se de outrem – é visualizar essas questões com objetividade.

Do contrário...

Do contrário a degradação humana que vemos crescer todos os dias nas ruas de nossa cidade, não só continuará a progredir, como a se agravar, pois, como nos dizia Brecht:

“Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo”.

Michael Melo Bocádio – Pesquisador e Escritor.

Fortaleza, 28/12/2025.


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