📃 Editorial Ano II/001: Sobre a Necessidade de se Explicar o Óbvio em Tempos de Ódio
“Eu
vivo em tempos sombrios.
Uma
linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma
testa sem rugas é sinal de indiferença”.
(Brecht)
Ao acessar o nosso site, você
provavelmente terá se deparado com a famosa epígrafe de Brecht grafada no banner,
não é mesmo? Posso te confessar uma coisa? Estranhamente, quando penso no verso
brechtiano, me recordo de Nelson Rodrigues. Pode parecer uma associação um
tanto inusitada, mas asseguro-lhe que ela faz todo o sentido.
Assim como o poeta e
dramaturgo alemão, o também dramaturgo carioca costumava a afirmar a
dificuldade em comunicar o óbvio. Ao tomarmos contanto com essa preocupação, inevitavelmente
lembramos da polarização política que ainda estamos, bem como o caos
negacionista que vivenciamos durante a pandemia. Fatos como estes, nos mostram
o quanto a persistência em não enxergar as situações mais evidentes (e o
empenho em criar explicações complicadas para fugir delas), tornou-se a
verdadeira marca de nosso senso comum.
Nelson Rodrigues chamava
esse tipo de verdade de o “óbvio ululante”: aquilo que todo mundo vê,
mas que só ganha existência quando alguém tem a coragem de afirmá-lo.
Curiosamente, o fenômeno do óbvio ululante que o autor de Vestido de Noiva
comentava, dá-se no período onde o Brasil estava às vésperas de uma ditadura.
Há, não por acaso, uma relação intrínseca entre a intensificação dessa dificuldade coletiva e a
emergência de períodos de autoritarismo.
Sobre essa questão, há um fenômeno imediatamente associado a esse tipo de negacionismo. Tal fenômeno
aparece com maior evidencia quando observamos no que se tornou a discussão
política em nossos dias. Frequentemente, a palavra ideologia, ou ideólogo,
surge em meio ao debate, como uma forma de deslegitimar ou descredibilizar o
interlocutor. Distanciando-se de seu sentido original, a noção de ideologia
(no contexto do debate político), relaciona-se hoje à uma visão de mundo superficial
e subjetiva. Tal perspectiva, impediria, ao seu portador, a capacidade de ver o
mundo com objetividade, daí o seu teor pejorativo.
Outro fato relacionado ao
mesmo fenômeno é o de que nossa autoidentificação com as organizações e com
lideranças políticas (sejam de direita ou de esquerda). Esta hoje se dá não
através do programa ou projeto político destas, mas pelo sentimento de afeto ou
de ódio que elaas nos inspiram.
Tais os fatos apontam
para o mesmo fenômeno: o da subjetivação do debate político. Este fenômeno
ocorre quando a discussão e a própria ação política aparecem motivadas principalmente
pela subjetividade. Ok, posso concordar com você este fenômeno sempre existiu,
mas o potencial destrutivo que a subjetivação do debate político assume na
atualidade, oferece pouquíssimo espaço para a racionalidade e a objetividade.
Ora, é justamente pelo
fato de que hoje, a racionalidade e a objetividade terem um espaço cada vez mais
reduzido é que esta página foi concebida. Durante os últimos cinco ou seis
anos deste portal, a compreensão mais próxima da realidade descrita acima, à medida que se cristalizava, passou
a direcionar a natureza dos textos destinados a este portal.
Não se trata aqui de
apresentar diretamente um “eu acho...” sobre as questões e problemas que
os jornais não cansam de nos trazer. Trata-se inicialmente, de apresentar os
fatos com um mínimo de objetividade. No entanto, há outros espaços onde esta
apresentação já é feita, contudo, o problema da circulação da informação na
sociedade brasileira, é o fato de que ela aparece desconectada de nossa própria
história. Desta forma a apresentação objetiva deveria ser contextualizada
dentro de uma perspectiva histórica, uma investigação onde se pudesse observar
os fatos em perspectiva.
Por fim, o direcionamento
para o qual os textos que produzimos aqui apontam não é para o que se deve ou
não ser feito, mas para questões, indagações, problemas. Por favor, não me
entenda mal. Pessoalmente entendo que as ações concretas são o verdadeiro
caminho para a superação de nossos problemas. “O poder material só pode ser
abatido pelo poder material”, já nos dizia Marx acertadamente. Contudo,
essa ação não pode nem será fruto de uma indução doutrinária. Uma práxis
política consciente é produto da discussão coletiva, algo que tem se perdido
mesmo na própria esquerda radical. Ao propor aos meus leitores questões,
problemas, indagações, faço um convite, não ao debate doutrinário, mas à
discussão investigativa.
Essas são, em linhas
gerais, as diretrizes a partir do qual os ensaios e artigos de opinião
destinados a este portal são formatados. Lamentamos a demora em esclarecer essa
linha editorial junto a nossos leitores, mas sua definição veio após este
último período, após suspendermos as publicações deste último ano. Começamos, a partir de então, a repensar o porquê e o sentido de ainda estarmos mantendo esta página.
2026, pelo seu próprio
calendário, será um ano de muitas desconfianças e crises de credibilidade entre
a opinião pública e os chamados “formadores de opinião”. Acredito que todo e
qualquer esclarecimento sobre meu trabalho é a melhor forma de construir uma
relação de confiança sóbria e duradoura.
Michael Melo Bocádio – Escritor,
Pesquisador e criador do site Destoando.
Fortaleza, 29/12/2025.


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