📖 O EQUILIBRISTA: A QUESTÃO DA CONDIÇÃO HUMANA E AS CONSEQUÊNCIAS SOCIOPOLÍTICAS DA CRISE DA CONCEPÇÃO DE SUJEITO (PARTE 2)

 Entre o AltruĂ­smo e a BarbĂĄrie


(AdvertĂȘncia: este texto apresenta-se como uma continuação e exige, para seu entendimento, a leitura preliminar das postagens anteriores. Se vocĂȘ estĂĄ lendo pela primeira vez, volte para a postagem do dia seis de maio e prossiga atĂ© aqui)


A pergunta sobre em que consiste a nossa humanidade parece aparentemente ser uma questĂŁo, por deveras existencial, sem grandes consequĂȘncias para alĂ©m do tormento de nossas prĂłprias anĂĄlises subjetivas, mas, como diziam meus avĂłs: “o buraco Ă© bem mais embaixo”.

Vejamos inicialmente, alguns casos reais que motivam a reflexão teórica sobre esta indagação.

Harriet Tubmanm (1822-1913) nasceu em Dorchester, estado do Maryland nos Estados Unidos. Durante quase trinta anos, Harriet viveu como escrava quando fugiu pela primeira vez e entrou em contato com o movimento abolicionista conhecido como Underground Railroad. Com a ajuda do movimento, ela voltou para a fazenda onde tinha sido escravizada e resgatou quase toda sua famĂ­lia.

A história pareceria ter um final feliz, contudo, Harriet Tubmanm não se limitou apenas em salvar sua família da escravidão. Dali em diante, ela lideraria cerca de 19 missÔes e libertou cerca de 300 pessoas escravizadas nas fazendas do sul dos Estados Unidos. Em 1861, durante a Guerra Civil, ela liderou uma expedição armada que ajudou a trazer a liberdade a 700 pessoas escravizadas nas fazendas norte-americanas.

Longe dali, na Europa, Oskar Schindler (1908 – 1974) que nasceu em Svitavy, cidade tcheca localizada na regiĂŁo de Pardubice. Ele cresceu em Zwittau, MorĂĄvia, e em 1936 juntou-se ao serviço de informação da Alemanha Nazista, trabalhando como espiĂŁo. TrĂȘs anos depois, aderiu ao Partido Nazi. Em 1939, tornou-se proprietĂĄrio de uma fĂĄbrica de utensĂ­lios de cozinha em CracĂłvia, PolĂŽnia, e, mais tarde, tambĂ©m se tornou proprietĂĄrio de duas fĂĄbricas, uma de esmalte, outra de muniçÔes, na RepĂșblica Tcheca, durante a ocupação nazista. Mesmo tendo acumulado grande fortuna, certamente Schindler nĂŁo teria seu nome lembrado nos livros de histĂłria se nĂŁo tivesse usado de sua influĂȘncia para salvar mais de 1.200 trabalhadores judeus dos campos de concentração, empregando-os em suas fĂĄbricas.

Mas a histĂłria nĂŁo Ă© feita apenas de gestos humanitĂĄrios!

Durante a guerra sino-japonesa entre 1894 e 1895, o governo japonĂȘs aprovou o estudo de armas biolĂłgicas em seres humanos. O caso ficou conhecido como “Caso: Unidade 731”, que era o nome da unidade liderada pelo general japonĂȘs Shiro Ishii que atuava com a permissĂŁo direta do Imperador.

Estima-se que, durante a guerra, pelo menos 250 mil homens, mulheres e crianças (em sua maioria chineses) eram sistematicamente contaminados por vĂĄrias doenças com o objetivo de testarem armas biolĂłgicas e quĂ­micas. É considerado atĂ© hoje um dos crimes de guerra mais famosos da histĂłria da humanidade!

E falando em histĂłrias de guerra, vocĂȘ ouviu falar Josef Mengele (1911-1979)? Este fora um oficial alemĂŁo da Schutzstaffel (SS) e mĂ©dico (isso mesmo, aqueles que fazem o tal “Juramento de HipĂłcrates” onde juram “nĂŁo infringir sofrimento e dor Ă  outras pessoas”). Mengele atuou no campo de concentração de Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial. Sua função era selecionar as pessoas que seriam mortas nas cĂąmaras de gĂĄs. AlĂ©m disto, Mengele costumava realizar experimentos em prisioneiros. Em seu furor sĂĄdico, este senhor tinha como preferĂȘncia, injetar clorofĂłrmio em irmĂŁos gĂȘmeos, fazendo com que o sangue destes coagulasse e quase parasse. Ainda vivos, Mengele os dissecava para observar o comportamento de seus ĂłrgĂŁos em relação ao produto injetado. NĂŁo por acaso, este ser abjeto ganhou o “singelo” apelido de “Anjo da Morte”.

Mas por que estamos aqui lembrando de histórias tão diferentes e distantes umas das outras, não só no tempo, no espaço, quanto em suas intencionalidades?

SituaçÔes como as que listamos acima nos colocam diante da irresistível questão:

O que significa afinal, sermos humanos?


CONTINUA...

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