O ÓVIO ULULANTE ANO I, Nº 1: MINISSÉRIE: OS MITOS DO SENSO COMUM- APRESENTAÇÃO: “QUE TEMPOS SÃO ESSES...” A CRISE DO “LOGOS” POLÍTICO E OS MITOS DO SENSO COMUM – PARTE 1

Uma análise sobre os elementos da subjetivação do debate político contemporâneo: crise econômica, ultradireita, Bigtechs, Fake News e... 

Desde o pensamento antigo, a Política tem sido definida como a arte da argumentação e do convencimento. Entretanto, o que acontece quando as possibilidades de diálogo estão socialmente limitadas?

O que ocorre quando, ao invés de falarmos sobre propostas, programas e estratégias políticas, os detalhes da vida pessoal de um candidato – como por exemplo, sua religião, seus valores ou sua orientação sexual – se tornam mais relevantes para definir o voto do eleitorado em uma campanha?

Como avaliar o mundo em que vivemos quando nossas referências sobre informação e conhecimento aparecem comprometidas e relativizadas?

Rousseau costumava argumentar que a verdadeira igualdade política só pode existir quando, economicamente, um cidadão: “não seja tão opulento a ponto de poder comprar outro, e nenhum tão pobre a ponto de ser constrangido a vender-se." Todavia, quando a precarização do trabalho se universaliza e a insegurança financeira se torna em uma constante na vida dos trabalhadores, a corrupção eleitoral deve continuar a ser vista como um problema moral ou estrutural?

Uma vez que as eleições definitivamente tomaram conta do debate político este ano, as questões acima aparecem catalisadas pela importância dos cargos que estão em disputa (Presidente da República, Governadores, Senadores, Deputados Federais e Estaduais). Tratam-se daqueles que decidem não só o direcionamento estratégico de nossa sociedade, mas a criação ou eliminação de programas sociais, além do nosso posicionamento na geopolítica internacional.

Doravante, o debate político atual aparece atravessado e já começa comprometido antes mesmo do próprio ato da conversação. Esse comprometimento está direta ou indiretamente relacionado às questões que mencionamos acima. Tais problemas, ao invés de serem um convite à reflexão, na verdade, se tornam na fonte para a emulação de certezas individuais.

Cada um de nós tem suas próprias explicações baseadas em nossos grupos de certezas. O diálogo, portanto, deixa de ser a busca para se chegar à um resultado comum. A conversação torna-se em instrumento de imposição da vontade. Chega-se a tal ponto, que os interlocutores ignoram os argumentos uns dos outros e permanecem reafirmando suas próprias proposições.

Tais certezas, em grande parte das vezes, fundamentam-se em ideias, sentenças ou raciocínios que tomamos sem nenhuma análise crítica, apenas porque aparecem disponíveis a nós através dos meios de comunicação, ou porque as tomamos emprestado de nossos amigos, nossos pais ou conhecidos.

No sentido de problematizar essas certezas que trazemos do cotidiano, escolhemos, para dar início a esta nova coluna do site Destoando, trazer a proposta desta minissérie quinzenal intitulada “Os Mitos do Senso Comum”.

Mas, afinal, o que são os “mitos” do senso comum e como eles estão ligados às questões que levantamos nesta introdução?

Esta questão é o leitmotiv deste texto de apresentação; no entanto, antes de respondê-la diretamente, precisamos aqui retomar alguns aspectos que nos levam a partir, não de conceitos e teorias políticas, mas da sociologia do cotidiano, rastreando as origens do senso comum que norteia as nossas opiniões políticas imediatas.

Iniciemos pelo início, isto é, na busca por entender quando e em que momento falar de política tornou-se uma questão de vida ou de morte.

Lembranças inconvenientes de um passado não tão distante: a universalização da violência política e a crise no logos político ocidental



Você lembra de Marcelo Arruda?

Eu lembro!

Em 2022, em Foz do Iguaçu, o guarda municipal Marcelo Arruda foi assassinado em sua própria casa, durante sua festa de aniversário. O motivo? Marcelo havia tematizado a comemoração com referências ao ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva. Como você deve se lembrar, Lula naquele ano estava competindo com o então Presidente Jair Bolsonaro. O assassino era seu vizinho e bolsonarista convicto. Este, sentiu-se tão indignado com aquela manifestação pública de voto que se achou no direito de invadir a festa com uma arma e alvejou o guarda municipal na frente de seus parentes e amigos.

Infelizmente, nas eleições de 2022, Marcelo Arruda não foi o único a perder a vida por manifestar publicamente suas preferências de voto contra a ultradireita bolsonarista.

No mesmo ano, no Mato Grosso, Benedito Cardoso foi morto a golpes de faca após declarar apoio a Luiz Inácio Lula da Silva. Em Belo Horizonte, apoiadores de diferentes candidatos entraram em confronto físico durante manifestações políticas, conforme noticiado pela Folha de S. Paulo. Em Recife, um eleitor foi agredido após usar camiseta com referência política, segundo o UOL Notícias. Em São Paulo, agressões em bares e espaços públicos motivadas por divergências políticas também foram registradas pelo Estadão. Já em Porto Alegre, conflitos familiares por posicionamentos políticos tornaram-se tema de reportagens na BBC News Brasil.

Contudo, a violência política não se restringiu nem as eleições de 2022 nem aos conflitos da vida cotidiana. Episódios de confronto tornaram-se recorrentes também nas instituições da República, mesmo fora do período eleitoral. Sessões da Câmara dos Deputados têm sido marcadas por trocas de acusações, gritos e interrupções, com parlamentares chegando a ameaçar colegas em plenário, conforme reportado pelo Congresso em Foco. No Senado, debates sobre temas sensíveis têm resultado em confrontos verbais intensos. Em câmaras municipais, como as de São Paulo e Rio de Janeiro, sessões são interrompidas por tumultos, empurrões e acusações pessoais, conforme cobertura do G1.



Como sempre, uma das explicações recorrentes diante desse tipo de notícia é atribuir tais comportamentos à nossa “índole” ou à nossa formação social — uma forma de naturalizar o absurdo. No entanto, as posturas intolerantes que indicam uma crise do logos político (isto é, uma crise do discurso e do debate político) não se limitam às nossas fronteiras.

Na Argentina, houve a tentativa de assassinato de Cristina Fernández de Kirchner em 2022. No Peru, conflitos entre governo e Congresso desencadearam protestos violentos com mortes registradas, segundo o El País. No Chile, manifestações políticas continuam gerando confrontos entre grupos divergentes, conforme a France 24. Casos semelhantes também aparecem no chamado “mundo livre”, como nos Estados Unidos e na Europa.

Esses fatos evidenciam uma tendência global à intolerância política que, frequentemente, tem escalado para manifestações de violência física. Diante desse cenário, uma questão se impõe: por que o debate político tem se tornado tão difícil?

De onde vem a crise do logos político no Ocidente?

Essa questão, entretanto, já aparece comprometida por uma série de explicações simplistas que tentam explicar, em uma frase ou duas, um problema que exige leituras mais sensíveis.

Direta ou indiretamente, ao levantarmos essa questão, provavelmente, a sua mente já deve ter acessado algumas dessas explicações fáceis.

Ora, por que elas são insuficientes?

Por que não podemos nos contentar com elas?

Será que elas conseguem se manter quando as confrontamos com os fatos?



O Canto da sereia: as falsas explicações para a crise do “logos” político


Como vimos, uma das explicações mais imediatas para os casos que relatamos acima foi a de atribuir a violência política ao “DNA” do povo brasileiro. Contudo, outra explicação que costuma aparecer – esta com aparência mais acadêmica – é a de que nossas instituições ainda seriam “jovens” demais (apesar de já terem mais de quarenta anos). Tendo literalmente nascido ontem (no sentido histórico da palavra) elas não teriam tido tempo suficiente para moldar nosso comportamento político.

Ambas as explicações perdem força e se provam insuficientes quando observamos a recorrência desses fenômenos em países com longa tradição de instituições constitucionais, como vimos acima.

Seja no Brasil, na América Latina ou em outros locais que sempre servem de referência de democracia (isto é, de democracia nos moldes burgueses) para o nosso jornalismo político, a violência política tem se apresentado de forma recorrente. Basta esta óbvia constatação para observar não só uma tendência à universalização destes casos, como a formação de um padrão na forma como hoje se desenvolve a (falta de) discussão política.

Entre as explicações mais difundidas para a crise do logos político no ocidente, pelo jornalismo especializado está a ideia de “polarização”. Segundo esta compreensão ultradireita e esquerda teriam chegado ao mesmo patamar de intolerância e estariam emulando posturas unilaterais junto à sociedade. O cenário político, portanto, seria consequência de dois lados igualmente intolerantes e igualmente responsáveis por disseminar discursos de ódio junto à população.

Tal leitura, parafraseando Raul Seixas, não passa de “uma grande piada — e um tanto quanto perigosa”.

Não é possível colocar esquerda e ultradireita como termos equivalentes de uma mesma equação. A ultradireita é a expressão o irracionalismo político e da recusa ao diálogo. Já as correntes de esquerda, com todas as suas contradições, ainda operam, majoritariamente, dentro dos limites institucionais e do Código Penal. Não vimos em 2022 parlamentares de esquerda correndo atrás de jovens com uma arma na mão. O mesmo não se pode dizer de parlamentares de ultradireita que foram se esconder na Itália por conta de casos como este.

Ainda assim, não se pode ignorar que há episódios de intolerância no debate político  também entre setores da própria esquerda, embora eles não descambem para a violência criminal deliberada. Um exemplo importante é o fato de que temas que eram caros à esquerda não são hoje mais sequer mencionados em debates públicos para não comprometer o governo.

Alguém aqui já ouviu algum membro do atual Governo falar na auditoria da dívida? Essa pauta moveu a atividade das esquerdas durante o final dos anos noventa, chegando ao ponto de mobilizar um plebiscito popular liderado pelo Partido dos Trabalhadores. O que foi feito da crítica histórica do petismo ao presidencialismo de coalizão? A proposta de democracia participativa, que foi a tônica das prefeituras petistas durante todas as décadas de oitenta e de noventa, ao chegar diante da possibilidade de ser formatada a nível Federal, foi abortada logo em 2003.

E o que dizer da Reforma Agrária?

Temas e propostas que eram a marca registrada do lulo-petismo até antes de 2003 hoje sumiram do léxico da maioria dos seus dirigentes que ocupam pastas em Ministérios e cargos de confiança no Governo. A palavra de ordem hoje é: “derrotar a ultradireita” ou “garantir a governabilidade!

E o que ocorre hoje para aqueles que se perguntam o por quê do lulo-petismo ter deixado esses temas no cabide justamente quando poderia torná-los realidade?

Ninguém é, verdade, é silenciado com armas e facas pelos setores hegemônicos da esquerda nacional, mas a indiferença também é uma forma de intolerância.

E a intolerância se tornou na marca que caracteriza o debate político em nossa época. Contudo, ela não se manifesta nem da mesma forma, nem com a mesma intensidade em todos os campos políticos ou em todas as classes sociais.

A explicação da “polarização” torna-se uma piada porque ignora o que mais é noticiado: o fato de que a maior parte dos casos onde a intolerância deu vazão à crimes de ódio e violência partiu da ultradireita. Simultaneamente ela é perigosa porque atribui as esquerdas uma conduta criminosa. Subrepticamente a mídia corporativa aqui procura fazer o que sempre fez: criminalizar os lutadores sociais que, com todas as suas contradições, são aqueles mais sensíveis aos problemas e demandas populares no País e o único espectro político a se preocupar em soluções para os problemas estruturais de nossa sociedade.

E não me refiro unicamente às frações do lulo-petismo.

Afinal, a esquerda não se resume a estes...

Outra explicação recorrente é aquela que atribui às redes sociais a responsabilidade pela degradação do debate público. Segundo essa visão, as plataformas digitais teriam moldado o comportamento dos usuários, induzindo uma recepção irrefletida das informações e favorecendo a disseminação de conteúdos manipulados.

Essa leitura, ao contrário das anteriores, tem a vantagem de se apoiar em fatos concretos: o apoio de proprietários de Bigtechs a lideranças de ultradireita; o papel decisivo das redes em eleições presidenciais como as de Donald Trump e Bolsonaro; a intensificação de mobilizações políticas mediadas por plataformas digitais, etc.

Mas não nos enganemos!

Se recorrermos à uma analogia policial, essa explicação incorre no erro de atribuir à arma a autoria do crime, e não ao agente que a utiliza. Embora haja evidências do papel das bigtechs na amplificação dos fenômenos de intolerância política — seja por interesses econômicos, seja pelo funcionamento algorítmico das plataformas —, as redes não criam esses comportamentos do nada: elas potencializam dinâmicas sociais já existentes.

Diante disso, a questão permanece — e talvez ainda mais incômoda: se essas explicações não são suficientes, então o que está, de fato, na raiz da crise do debate político em nosso tempo?



CONTINUA...

O TEXTO CONCLUI NA POSTAGEM DESTA QUARTA-FEIRA: 22/04

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