📖 O EQUILIBRISTA: A QUESTÃO DA CONDIÇÃO HUMANA E AS CONSEQUÊNCIAS SOCIOPOLÍTICAS DA CRISE DA CONCEPÇÃO DE SUJEITO (PARTE 6)

(AdvertĂȘncia: este texto apresenta-se como uma continuação e exige, para seu entendimento, a leitura preliminar das postagens anteriores. Se vocĂȘ estĂĄ lendo pela primeira vez, volte para a postagem do dia seis de maio e prossiga atĂ© aqui)

 

A compreensĂŁo antropolĂłgica moderna, a origem dos nossos direitos sociais e polĂ­ticos e os fundamentos do nosso comportamento social

Podemos dizer que a nossa atual visĂŁo de mundo Ă© construĂ­da por dualidades: essĂȘncia e contingĂȘncia; racionalidade e subjetividade; sociabilidade e natureza; liberdade e necessidade; etc. Do ponto de vista da nossa compreensĂŁo antropolĂłgica atual, hĂĄ duas ordens de perspectiva antropolĂłgica: a primeira Ă© a nossa autocompreensĂŁo teĂłrica que, como afirmamos anteriormente, fundamenta nossa concepção de direitos sociais e de liberdades polĂ­ticas. Essa compreensĂŁo Ă© fundada sobre um tipo de maneira de pensar, conhecida como dever-ser.

A segunda perspectiva é o comportamento social necessårio, onde nossos comportamentos são direcionados pelas necessidades sociais advindas das relaçÔes sociais. Esse comportamento pode ser compreendido como uma forma de ser necessåria, extraída das condiçÔes objetivas do nosso ser social.

Apesar de serem diferentes, ambas expressam os aspectos subjetivos e objetivos que destacamos anteriormente.

TĂĄ ficando complicado?

Calma!

Vamos primeiro compreender como essa ordem de compreensĂŁo aparece teoricamente, ou seja, como ela Ă© representada em categorias e conceitos. Por quĂȘ? Ora, porque Ă© a partir dessa forma de representação que aparecem os elementos que vĂŁo fundamentar nossas leis e toda a nossa institucionalidade polĂ­tica.


A autocompreensĂŁo antropolĂłgica na modernidade



Para representar nossa compreensão antropológica atual, os pensadores modernos se perguntaram exatamente as mesmas questÔes que fizemos no início deste artigo (lå na postagem do dia seis de maio!). Afinal, o que nos define como humanidade? Quais as características que distinguem os seres humanos dos outros animais? Como, na época, as pesquisas arqueológicas e as investigaçÔes sobre a formação de nossa sociabilidade ainda eram muito precårias, eles lidaram com essas perguntas de forma matemåtica. Ora, como os matemåticos lidam com uma questão que não conseguem resolver? Eles elaboram artifícios! Ou seja, um artifício matemåtico é a situação hipotética que resolve o problema dentro das condiçÔes simuladas por aquele artifício hipotético.

Assim, para deduzir as caracterĂ­sticas gerais de nossa humanidade, os modernos estabeleceram uma situação ideal que chamaram de estado de natureza. Tal estado, portanto, nĂŁo consiste numa tentativa em descobrir nossas origens, mas a de isolar dos seres humanos todo o tipo de influĂȘncia social que poderia afetar nosso comportamento, de modo a encontrar nossa ordem comportamental “natural”! Aquela que permaneceria a despeito de qualquer influĂȘncia da sociedade sobre nĂłs.

Outro aspecto importante na formação desse estado de natureza, é que cada ser humano não era tomado como participante de um dado grupo, mas era tomado individualmente. Dessa maneira, os modernos partiam da compreensão de que o indivíduo era anterior à sociedade e só se associava à algum tipo de coletividade movido por alguma necessidade que não conseguisse prover sozinho.

A partir, pois, dessas duas condiçÔes: a) o isolamento da humanidade de toda e qualquer ordem social historicamente constituída e b) o isolamento dos indivíduos de todo e qualquer tipo de coletividade, é que os modernos deduziram as características gerais que nos definiam como pessoa.

Mas que caracterĂ­sticas sĂŁo essas?

A primeira caracterĂ­stica era o fato de que, se tomados individualmente, nĂŁo haveria, a priori nenhum tipo de força exterior a nĂłs mesmos que direcionasse nosso comportamento. Em estado de natureza, ou seja, numa situação onde os indivĂ­duos estivessem sozinhos junto Ă  natureza, a Ășnica força a movĂȘ-los eram suas pulsĂ”es e suas necessidades naturais. Havia, no entanto, entre essas pulsĂ”es, um elemento fundamental, a vontade individual. Esta vontade nĂŁo deve ser entendida como mera motivação subjetiva, mas nela tambĂ©m estava contida a racionalidade, a moralidade, a criatividade, a imaginação, a memĂłria e todos os aspectos que envolvem os seres humanos como seres cognoscĂ­veis.

Essa vontade, portanto, dotava esses seres humanos da capacidade de autodeterminação, ou seja, de serem capazes de escolher de que forma eles satisfariam suas necessidades. Essas capacidades desenvolviam-se em função das necessidades humanas. Conforme essas cresceriam, mais os seres humanos teriam de desenvolver as capacidades advindas da vontade. Havendo assim, uma relação entre necessidade e vontade.

Se não hå, portanto, nenhum poder acima destes e nada que os mova além de suas próprias necessidades e capacidades individuais, era razoåvel deduzir que todas as pessoas seriam livres, por natureza! A liberdade seria, desta forma, o primeiro aspecto que diferencia os seres humanos dos animais.

Ora se todos nascem com dotados de vontade e submetidos a mesma ordem de necessidades, nĂŁo seria absurdo inferir que, a liberdade seria igual para todos e, por isso, todos seriam, por natureza, iguais!

Desta forma, a vontade, a igualdade e a liberdade seriam os primeiros aspectos constitutivos da natureza humana, na compreensĂŁo dos pensadores modernos. HĂĄ ainda um outro elemento importante. Vejamos melhor como ele aparece.

Ora nesse movimento entre necessidade e vontade, aparece um elemento de mediação: a posse! Isso porque, para que os seres humanos tenham satisfeitos suas necessidades Ă© preciso que estes consumam aquilo que constitui o objeto das suas carĂȘncias. Tal objeto, no entanto, nĂŁo Ă© dado diretamente pela natureza, mas transformado pelos homens atravĂ©s do trabalho. Assim, o trabalho individual seria o elemento que garantiria a posse e o usufruto de determinado objeto, seja um instrumento de produção, seja a terra, ou a ĂĄgua, ou seja um bem, como um calçado, uma blusa, uma casa, etc. A posse ou a propriedade produzida atravĂ©s do trabalho individual seria mais uma caracterĂ­stica que distinguiriam os seres humanos dos outros seres.

Desta maneira, a vontade, a liberdade, a igualdade e a propriedade seriam os elementos constitutivos fundamentais de nossa antropologia humana na visĂŁo dos pensadores modernos. Mas logo fica a questĂŁo: se originalmente somos livres, iguais e com o mesmo direito ao usufruto do nosso trabalho, o que dĂĄ origem Ă  dependĂȘncia econĂŽmica, Ă  desigualdade social e ao fato de que aqueles que trabalham nĂŁo usufruem do produto do seu trabalho?

Segundo o pensamento moderno, o processo de formação das desigualdades sociais tem início com a associação coletiva dos seres humanos, naquilo que eles chamam de sociedade civil. A sociedade civil corresponde ao estågio, posterior ao do estado de natureza e pressupÔe uma sociedade formada a partir da reunião de seres livres e autÎnomos, movidos apenas por seus interesses privados.

Essa sociedade civil, constitui, no entanto, um paradoxo ou uma contradição inescapĂĄvel na opiniĂŁo dos pensadores da modernidade. Isso porque, se ela Ă© a verdadeira fonte da corrupção e da desigualdade social, onde os seres humanos que nasceriam naturalmente livres, iguais e com o direito de usufruĂ­rem do produto do seu trabalho, tornam-se, nesta ordem de sociabilidade, em criaturas oprimidas e escravizadas umas pelas outras. Contudo a origem da desigualdade social e da dominação polĂ­tica tem origem nessas mesmas caracterĂ­sticas naturais que predominavam no estado de natureza. A questĂŁo Ă© que, ao saĂ­rem de seu isolamento natural e ssociarem-se coletivmante na sociedade civil, as inĂșmeras vontades individuais entram em contradição de interesses e os indivĂ­duos procuram tirar vantagens uns dos outros para satisfazer sua prĂłpria vantagem.

Assim é pelo próprio fato de serem seres autodeterminados, portadores de vontade, que os próprios homens se veriam na necessidade de ameaçar a liberdade e a propriedade de outrem.

A saída encontrada pelo pensamento moderno foi uma reorientação do Estado que aqui deveria ser não uma entidade despótica, mas o produto de um contrato social, ou seja, uma tentativa de equalização dos interesses individuais, através da alienação coletiva da liberdade natural.

Como assim?

Os pensadores modernos sugerem uma nova configuração do Estado como produto de uma relação de troca: por um lado, os indivíduos alienam sua liberdade individual, subordinando-se voluntariamente às leis do Estado, enquanto o mesmo produziria leis que garantissem a liberdade, a igualdade coletiva e que garantissem que os indivíduos teriam acesso ao produto do seu trabalho.

Essa relação contratual Ă© o que garantiria nĂŁo somente a manutenção das caracterĂ­sticas... “naturais” deduzidas do estado de natureza e, ao mesmo tempo, Ă© a garantia de legitimidade do poder do Estado que sĂł pode ser reconhecido como legĂ­timo na medida em que garante a liberdade e a igualdade “natural”.

É aqui que aparece a categoria de sujeito de direitos: ou seja, Ă© em vista desta compreensĂŁo antropolĂłgica que poderĂ­amos chamar de uma antropologia polĂ­tica que se fundamentam nossos direitos sociais e polĂ­ticos. Todas as constituiçÔes vindas de lĂĄ pra cĂĄ, nas sociedades que se organizam atravĂ©s do chamado Estado de Direito, sĂŁo formuladas a partir desta visĂŁo.

SĂł que...

Toda essa formulação, como vimos, nĂŁo tem por base uma visĂŁo dos aspectos reais do comportamento humano na sociedade moderna, mas numa situação hipotĂ©tica, o estado de natureza. No entanto, apesar dessa autocompreensĂŁo antropolĂłgica ser deduzida de uma formulação hipotĂ©tica  totalmente abstrata, ela tem origem nos mesmos elementos objetivos que formam o nosso comportamento antropolĂłgico: a indĂșstria, o mercado e o Estado-nação.

Como assim?

Vamos começar com a noção de liberdade, ou seja, com o fato de que o pensamento moderno parte de uma existĂȘncia natural onde os seres humanos eram originalmente um conjunto de indivĂ­duos isolados e independentes uns dos outros e da sociedade em sua totalidade. 

Basta um simples olhar para o nosso passado, hoje à luz de descobertas arqueológicas e antropológicas que, em sua época, os teóricos do Direito Natural não possuíam, embora isso não desculpe aqueles que se mantiveram nos quadros desta concepção na contemporaneidade.

Quanto mais voltamos no tempo, mais observamos que as pessoas aparecem mais e mais dependentes da coletividade Ă  qual pertenciam. Essa dependĂȘncia nĂŁo existia apenas no Ăąmbito da dependĂȘncia econĂŽmica, uma vez que sĂł atravĂ©s do trabalho coletivo Ă© que estes poderiam adquirir da natureza os produtos de que necessitavam.

A prĂłpria noção de individualidade que hoje aparece como um aspecto inato Ă  nossa prĂłpria existĂȘncia imediata, era, na verdade, algo que era reconhecido mediante as nossas açÔes junto a esta comunidade.

Como assim?

Vamos tomar como exemplo as civilizaçÔes clĂĄssicas (GrĂ©cia e Roma). Nestas sociedades podemos identificar as formas com que se obtinha o reconhecimento social da individualidade atravĂ©s da figura do HerĂłi.  Esta representação nĂŁo tinha um modelo fixo, podendo assumir formas variadas de heroĂ­smo, seja no aspecto bĂ©lico, na figura do herĂłi-guerreiro (HĂ©racles e Aquiles, por exemplo); ou como representação da sabedoria do lĂ­der polĂ­tico (Édipo e Odisseu) ou no desempenho das artes (Orfeu), etc.

Independente das variantes da figura do herĂłi, o reconhecimento das suas qualidades individuais e, portanto, o reconhecimento ou mesmo a exaltação coletiva da sua individualidade, sĂł existia quando estes as colocavam a serviço de sua polis, ou seja, de sua comunidade e nĂŁo unicamente a serviço de seus prĂłprios interesses. 

A nossa noção de indivíduos autodeterminados, portadores de vontade (que engloba a racionalidade, o arbítrio moral e a criatividade) aparece num momento onde se descobre a subjetividade, algo que estå completamente ausente na sabedoria dos antigos.

Agora vamos falar da igualdade.

Vamos voltar ao hipotĂ©tico estado “natural”: se este era formado por indivĂ­duos livres, independentes e isolados entre si, como eles contraem relaçÔes uns com os outros? A resposta mais Ăłbvia seria atravĂ©s da troca de produtos, produtos estes que cada um individualmente nĂŁo teria como produzir, uma vez que, Ă© fisicamente impossĂ­vel que uma sĂł pessoa possa produzir tudo de que necessita.

Ora, se, hipoteticamente, supusermos a existĂȘncia destes indivĂ­duos livres, trocando produtos entre si, terĂ­amos de imaginar que estes produtores individuais sĂŁo portadores de algum tipo de propriedade, como a terra e as ferramentas para a produção. EntĂŁo estamos pressupondo que originalmente os indivĂ­duos eram produtores individuais que produziam nĂŁo apenas para si, mas para trocar e que essa troca era baseada no intercĂąmbio de quantidades equivalentes.

A igualdade viria, portanto, de duas circunstùncias: do fato destes serem produtores individuais e de que, numa situação de troca de equivalentes, elas só podem se då entre dois sujeitos em iguais condiçÔes de troca.

SĂł que hĂĄ dois aspectos importantes:

O primeiro é que nunca existiu igualdade nas condiçÔes de produção, por um motivo que aludiremos mais na frente, mas o fato é que o trabalho produtivo, como aludiu-se linhas atrås, não era individual, mas coletivo e não se dava entre produtores que possuíam as mesmas condiçÔes de trabalho, mas entre aqueles que possuíam os instrumentos de produção e aqueles que, sem instrumentos de produção, tinham de alienar seu trabalho.

O segundo aspecto Ă© que a troca de equivalentes nem sempre existiu!

Ela não é senão uma entre as vårias formas de troca que se seguiram na história da humanidade. No feudalismo, por exemplo, a relação de troca entre o suserano e o vassalo se dava através da troca de um terço, ou um quarto da produção de um ano para o vassalo enquanto o suserano cedia-lhe o terreno e os instrumentos para a lavoura. No entanto, a partir dessa terça parte ou quarta parte, os vassalos pagavam seus impostos que incluíam o aluguel da terra e dos instrumentos de trabalho, além dos impostos que eram arrecadados para sustentação das despesas do suserano.

 A noção de troca, portanto, – seja entre nas trocas individuais, seja nas trocas entre naçÔes – nem sempre obedeceu ao critĂ©rio de equivalĂȘncia.

Mas quando a troca de equivalentes passou a preponderar como forma de troca generalizada em todas as relaçÔes sociais? A troca de equivalentes é, na verdade, a forma båsica de troca de uma sociedade produtora de mercadorias. Esta é a ordem de sociedade em que vivemos hoje e que, portanto, nem sempre existiu.

Agora vamos falar, por Ășltimo, do direito Ă  propriedade.

Em primeiro lugar, é preciso aqui diferenciar dois tipos de propriedade. O primeiro são os bens, ou seja, aqueles objetos que são consumidos de forma imediata e contínua como a comida, o vestuårio, a moradia e demais itens de uso pessoal. O segundo tipo de propriedade é a dos meios de produção, ou seja, os instrumentos que são empregados na produção da riqueza.

Como vimos, essa riqueza Ă© produzida coletivamente, mas os meios de produção nĂŁo sĂŁo de propriedade coletiva, mas... privada!  O que significa dizer que o usufruto do trabalho coletivo sĂł cabe aos donos dos meios de produção! Como? Afinal, vimos que, na interpretação dos pensadores modernos, o direito Ă  propriedade Ă© mediado pelo trabalho, ou seja, algo sĂł se poderia estabelecer como propriedade o que fosse produto do trabalho. A questĂŁo Ă© que a posse privada dos meios de produção leva aos trabalhadores que nĂŁo possuem estes meios alienarem o seu trabalho, ou seja, o dono dos meios de produção se apropria do trabalho alheio atravĂ©s do monopĂłlio da propriedade dos meios de produção.

Assim: liberdade, igualdade e propriedade, sĂŁo, na verdade caracterĂ­sticas inerentes nĂŁo Ă  uma situação originĂĄria de formação de nossa sociabilidade, mas sĂŁo as caracterĂ­sticas das relaçÔes sociais desenvolvidas a partir da indĂșstria, do mercado mundial e do Estado-nação. Os nossos direitos sociais e polĂ­ticos, embora sejam uma conquista importante, nĂŁo se alicerçam em caracterĂ­sticas “naturais”, mas em aspectos sociais!

Como assim?

Isso é prosa pra outro dia, o importante é que ficou bem claro como as condiçÔes objetivas que condicionam nossas relaçÔes sociais nos levaram à uma imagem determinada de ser humano que é a ideia de sujeito de direitos.

Mas, como afirmamos, essa visão ela tem um sentido estritamente político e legislativo. Mas por que ela é hoje atacada teoricamente? Por vårios motivos, mas todos se relacionam de alguma forma ao fato de que essa visão se encontra em contradição com nosso comportamento social que existe fora da esfera da política formal!

E como esta se constitui?


O comportamento social na sociedade produtora de mercadoras



Vimos que nas sociabilidades humanas anteriores, a construção da individualidade dĂĄ-se atravĂ©s da perspectiva de que cada uma enxerga a si mesmo como parte de uma Ășnica organização social. Esse sentimento podia se dĂĄ de duas formas, seja atravĂ©s de laços familiares (entendendo que aquela tribo ou cidade era formada por parentes que, em alguma medida tinham algum tipo de parentesco) ou de relaçÔes de pertencimento com o lugar onde nascera.

Na sociedade burguesa, no entanto, esses laços (territoriais e familiares) não existem mais. A formação de nossa identidade individual constitui-se a partir da diferenciação, autonomização e atomização de nossa individualidade, em relação ao conjunto da sociedade. Paradoxalmente, esta compreensão individualista se då num organismo social, onde o trabalho coletivo mais se amplia e se complexifica, através da estrutura do mercado mundial.

Mas essa afirmação de individualidade exige a uma série de demandas concretas. Para ter sua individualidade reconhecida socialmente, deve-se assumir um elevado padrão de consumo que só pode ser obtido a partir de um alto nível de acumulação de propriedades. Estes dois aspectos são condição necessåria para que tenhamos nossa identidade reconhecida coletivamente na sociedade burguesa.

SĂł que esta exigĂȘncia se dĂĄ no contexto de uma sociabilidade onde predomina a exploração do trabalho e a concentração cada vez maior de propriedade – tanto dos meios de produção quanto de bens de consumo – nas mĂŁos de um nĂșmero reduzido de pessoas. Ora o que temos quando as altas expectativas se chocam com condiçÔes cada vez mais reduzidas de realiza-las?

Crise!

Crise nĂŁo apenas em termos sociais, mas tambĂ©m no sentido da geração de transtornos psĂ­quicos cada vez maiores. Como assim? O momento de crise tem inĂ­cio quando, numa sociedade onde cada vez menos pessoas tĂȘm acesso Ă  riqueza, a pessoas que participam da classe trabalhadora (ou seja, a grande maioria da sociedade) nĂŁo conseguem alcançar o padrĂŁo econĂŽmico e social para a aceitação que ambicionam.

Como nĂŁo fosse pior, a dinĂąmica social que caracteriza a apropriação desses bens se dĂĄ atravĂ©s da concorrĂȘncia. Seja entre os trabalhadores, seja entre os capitalistas entre si. Tal concorrĂȘncia se dĂĄ tambĂ©m atravĂ©s da afirmação da individualidade como instrumento de inferiorização da individualidade de outros.

A pessoas participantes da classe trabalhadora, na medida em que possuem cada vez menos condiçÔes de satisfazer os critĂ©rios de felicidade atravĂ©s de um patamar crescente de consumo, tornam-se invisibilizadas e experimentam, alĂ©m do sentimento de fracasso individual, a sensação de derrota na corrida da concorrĂȘncia.

Essa situação de contradição entre a antropologia política a nível de Estado e o comportamento social no ùmbito das relaçÔes sociais cotidianas, permanece, no entanto, mais ou menos velada em momentos onde a ordem burguesa apresenta-se relativamente eståvel. No entanto, em momentos de crise social, onde o funcionamento regular não só da produção como da própria institucionalidade do Estado aparece comprometido, essa contradição aparece a olhos vistos.

É precisamente nestes momentos que a noção de direitos sociais e direitos polĂ­ticos que atĂ© hoje ainda sĂŁo a Ășnica salvaguarda da classe trabalhadora na sociedade capitalista contra a exploração do trabalho, passa a ser sistematicamente atacada.



Mas de que forma?

CONCLUI NA PRÓXIMA POSTAGEM


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